sexta-feira, 3 de maio de 2013

Romeu Kazumi Sassaki


ENTREVISTA

Romeu Kazumi Sassaki


Referência na área como um de seus principais consultores, uma unanimidade quando o assunto é inclusão no Brasil, e com seu trabalho reconhecido também internacionalmente, há 53 anos sua atuação acompanha as pessoas com deficiência em suas lutas e aspirações...


É com muita honra que a Revista Reação inicia uma fase diferente e de homenagens através da seção “entrevista”. As nossas famosas e tradicionais “páginas amarelas” trarão, a partir desta edição, uma nova série de personagens e personalidades. Vamos conversar também, em nossas edições, com alguns de nossos colaboradores habituais, pessoas que compartilham suas experiências e conhecimentos nos mais diferentes campos da inclusão, reabilitação, acessibilidade, educação, comportamento, arte etc. Para começar essa nova jornada, ninguém melhor que o nosso primeiro articulista e consultor técnico: Romeu Kazumi Sassaki. Ele esteve presente em todas as nossas 91 edições publicadas até agora, e continua com o mesmo empenho, entusiasmo e dedicação até hoje... e cada vez melhor.

Nascido em 1938 na zona rural de Campo Grande/MS, aos 3 anos de idade mudou-se com a família para São Paulo/SP. Sua formação acadêmica em serviço social começou em 1960, juntamente com a carreira profissional: direcionou todas as disciplinas do curso para a situação das pessoas com deficiência e conseguiu um estágio em uma empresa que, naquele ano, resolveu contratar funcionários nessas condições.

A partir daí, construiu sua trajetória, primeiramente como acadêmico, depois como assistente social clínico e, a partir de 1967 até agora, como consultor, sempre nessa área. Paralelamente, também exerceu o magistério superior por 18 anos, e por isso, vem sendo conhecido por todos como: "Professor Romeu".

Seus 53 anos de trabalho passam por dois paradigmas: o da “integração”, de 1960 a 1988; e o da “inclusão”, de 1989 até hoje. Na primeira fase, a palavra de ordem no campo das deficiências era INTEGRAR, significando que técnicos, especialistas, ou profissionais, deveriam moldar os clientes de modo a poder encaixá-los nos padrões de normalidade humana exigidos pela sociedade - escola, empresa, espaço urbano, transporte etc. Na fase seguinte, a bandeira passou a ser a de INCLUIR, entendendo-se que todos os sistemas sociais devem ser modificados de modo a se tornarem adequados para todas as pessoas, tenham elas ou não, uma deficiência.

Desde 1996, quando se iniciou ainda como “projeto” a Revista Reação – então chamada de Revista Nacional de Reabilitação – ele foi um dos responsáveis pelo seu conteúdo e forma de linguagem, maneira de abordar os temas e a estrutura de comunicação do veículo com o público leitor: pessoas com deficiências (físicas, intelectuais, visuais, auditivas ou múltiplas), seus familiares e os profissionais de todas as áreas que envolvem o setor. Foi o “professor” quem ensinou e ensina até hoje, com todo seu conhecimento e experiência, a equipe da Revista Reação, dando todo suporte sempre que necessário. E agora, pioneiro como sempre, será com ele a primeira entrevista dessa nova série. Vamos conhecer um pouco mais desse verdadeiro mito da inclusão.

Revista Reação - O que levou-o a atuar na área das pessoas com deficiência ?


Romeu Kazumi Sassaki - O meu envolvimento com a “integração” e depois com a “inclusão” de pessoas com deficiência começou pelo fato de ter havido alunos com deficiência estudando na minha casa, que era uma escola, cujo único professor era o meu pai. Lembro-me de que, em 1945, entre os muitos alunos, havia três crianças com deficiência. A participação “integrada” delas conosco ficou registrada em minha memória como algo natural. A partir de 1946 até o final da década de 50, quando estudei nas escolas de ensino fundamental e ensino médio, conheci outros alunos com deficiência.

RR - Como surgiu a ideia de ser consultor de inclusão social ?


RKS - A partir de 1967, comecei a ser procurado, informalmente, por pessoas, instituições e empresas que precisavam de orientação para resolver problemas de colocação de pessoas com deficiência no mercado de trabalho ou de organização de programas e serviços de reabilitação profissional. Ainda em 1967, após terminar meus estudos nos Estados Unidos e Reino Unido como bolsista da Organização das Nações Unidas, a própria ONU me designou para dar consultoria a um centro de reabilitação em Salvador/BA, que havia entrado com um pedido de assistência técnica para reorganizar o seu setor de Orientação Profissional e Colocação no Mercado de Trabalho. A partir daí e até os dias de hoje, tenho recebido solicitações de consultoria do primeiro, segundo e terceiro setores.

RR - Como começou o interesse pela Educação Inclusiva e quais são seus principais princípios ?



RKS - O interesse pelo aspecto inclusivo da educação começou em 1979, quando fui convidado para entrar no movimento das pessoas com deficiência que exigiam mudanças da sociedade para que ela se adequasse às pessoas. Graças ao movimento, passei a ver tudo pela ótica da inclusão. Sou defensor da ideia de mudarmos a sociedade para que todos possam fazer parte ativa dentro dela. Educação inclusiva é o conjunto de princípios e procedimentos implementados pelos sistemas de ensino, para adequar a realidade das escolas à realidade do alunado que, por sua vez, deve representar toda a diversidade humana. Nenhum tipo de aluno poderá ser rejeitado pelas escolas. As escolas passam a ser chamadas inclusivas no momento em que decidem aprender com os alunos o que deve ser eliminado, modificado, substituído ou acrescentado nas sete áreas de acessibilidade, a fim de que cada aluno possa aprender pelo seu estilo de aprendizagem e com o uso de suas inteligências. As áreas de acessibilidade são: arquitetônica (desobstrução de barreiras ambientais), atitudinal (prevenção e eliminação de preconceitos, estigmas, estereótipos, discriminações), comunicacional (adequação de códigos e sinais às necessidades especiais), metodológica (adequação de técnicas, teorias, abordagens, métodos), instrumental (adaptação de materiais, aparelhos, equipamentos, utensílios, tecnologias assistivas), programática (eliminação de barreiras invisíveis existentes nas políticas, normas, portarias, leis e outros instrumentos afins), e natural (adaptação de logradouros naturais sem prejudicar ou destruir o ecossistema).

RR - O que representa uma oportunidade de emprego para uma pessoa com deficiência ?


RKS - Tal oportunidade representa, para uma pessoa com deficiência, o mesmo que para pessoas sem deficiência. Basicamente, a oportunidade de trabalhar traz perspectivas animadoras na vida das pessoas, significa que a competência delas foi reconhecida, contribui para melhorar a qualidade de vida, eleva a autoestima, constitui um direito humano etc. Neste sentido, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência resume, em seu Artigo 3, os princípios que devem ser observados, não só no trabalho, mas também em todas as demais situações, como por exemplo: a não discriminação; o respeito pela diferença e pela aceitação das pessoas com deficiência como parte da diversidade humana e da humanidade; a igualdade de oportunidades; e a acessibilidade. Para tanto, devemos proibir a discriminação baseada na deficiência com respeito a todas as questões relacionadas com as formas de emprego.

RR - Como deve ser executada a mudança de mentalidade em relação às pessoas com deficiência ?


RKS - Defendo que a mudança de mentalidade (a quebra de preconceitos) ocorre de três formas, didaticamente distintas, porém simultâneas na prática: conscientização, sensibilização e convivência. A conscientização é o processo que utiliza conhecimentos, dados estatísticos, informações objetivas, relatos técnicos etc., direcionados ao raciocínio lógico das pessoas, o seu lado cognitivo. A sensibilização é o processo que utiliza depoimentos, histórias de vida, fotos, filmes, músicas etc., direcionados aos valores filosóficos e éticos das pessoas, o seu lado afetivo. A convivência é o processo dinâmico experimentado pelas pessoas sem deficiência junto a pessoas com deficiência, em situações reais no lar, na escola, no trabalho, no lazer, na comunidade, entre outras.

RR - O preconceito ainda é uma das grandes barreiras impostas à inclusão das pessoas com deficiência ?


RKS - Sim, os preconceitos ainda constituem a maior barreira para as pessoas com deficiência participarem plena e efetivamente da vida na sociedade. Os preconceitos, os estereótipos e os estigmas geram atitudes discriminatórias, dificultando ou impedindo que as pessoas com deficiência exerçam todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, garantidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. A experiência tem nos ensinado que a eliminação das barreiras atitudinais facilita a quebra das outras barreiras.

RR - O senhor é um batalhador pelo uso da terminologia apropriada na área, aqui mesmo na revista já escreveu vários artigos sobre o tema. Usar corretamente os termos ajuda na inclusão ?


RKS - Certamente que sim. Os termos corretos sinalizam o fato de que as pessoas que os utilizam incorporaram em seu vocabulário novos valores e conceitos sobre determinados segmentos populacionais excluídos e, consequentemente, essas pessoas se modificaram diante de tais segmentos. Esta modificação constitui o primeiro passo para incluir estes segmentos na sociedade. As pessoas devem aprender a referir-se aos outros por nomes que não os ofendam, não os humilhem e não os diminuam em sua dignidade como seres humanos.

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